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terça-feira, 12 de abril de 2016

Cidadania cultural: O direito à cultura

Em Cidadania cultural: O direito à cultura, a autora Marilena Chaui traz uma série de informações acerca do ponto de vista e ação cultural da perspectiva de um viés político. A autora cita como exemplo o momento em que trabalhou na Secretaria Cultura no governo de Luiza Erundina (então do Partido dos Trabalhadores - PT), entre 1989 e 1993. No livro, como nos recorda a sinopse oficial,
Em quatro ensaios, a filósofa Marilena Chaui trata de questões centrais do debate político e intelectual da atualidade. Retomando as discussões sobre o nacional e o popular na cultura e apresentando um balanço de sua atuação na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo no início dos anos 1990, Chaui interliga a questão do direito à cultura e à memória, democracia e socialismo, propondo um olhar instigante e revelador sobre a cultura e suas condições de produção e difusão, sempre a partir de um ponto de vista de esquerda.
Chega a ser curioso que naquele momento histórico, alguns pontos faziam sentido e tiveram a importância histórica temporal. Entretanto, mais de 20 anos depois, percebemos que o pensamento esquerdista cultural usou e muito mal as ideias de Gramsci e Raymond Williams. Basta ver que ou as ideias tornaram-se obsoletas, ou sofreram metamorfose ou pior, não foram implementadas ou foram de forma equivocada.
Na perspectiva gramsciana, o popular na cultura significa, portanto, a transfiguração expressiva de realidades vividas, conhecidas, reconhecíveis e identificáveis, cuja interpretação pelo intelectual, pelo artista e pelo povo coincidem. Esta transfiguração pode ser realizada tanto pelos intelectuais "que se identificam com o povo", como por aqueles que saem do próprio povo, na qualidade de seus intelectuais orgânicos.
Ao ongo de todos estes anos, o livro parece fora da realidade e obsoleto. Todas as realidades citadas acima foram abarcadas, ou algumas foram sumariamente ignoradas, aquelas julgadas de "cultura de elite"? Na prática, muitos intelectuais confundiram-se como pessoas que pensam e recebem em proveito próprio - vide $$ - esquecendo que se a cultura é para todos, não poderia esquecer de parcelas da população. E pior, não enxergar que a sociedade está sempre em mutação, e que conceitos tão como "cultura de elite", "cultura de massa", "cultura popular" muitas vezes causam embates desnecessários.
Ou pior, usar os recursos destas parcelas em proveito próprio, como vimos recentemente em "leis de incentivo", em que "intelectuais que se identificam com o povo", como citado nas próprias palavras de Chaui, são justamente os principais receptores financeiros. E aqui, também temos uma confusão grande: a questão cultural e econômica. Mesmo que se queira ignorar a economia, a mesma está inserida e deve ser pensada não de maneira romântica, mas de forma clara e objetiva.
Chega a ser curioso que existe uma fusão de uma ideia gramsciana com frankfurtiana. Algo que talvez não tenha ocorrido em nenhum outro lugar no mundo. A Escola de Frankfurt de certa forma não dava valor ao popular. Ao londo dos anos, usou-se os conceito de Gramsci para desmerecer a cultura erudita não selecionada. Ou seja, os gramscianos fizeram exatamente a mesma coisa, de forma invertida ao frankfurtianos.
A leitura do livro é importante para se compreender, no final das contas, que certas ideias são lindas no papel, são funcionais em certos momentos históricos. Mas, que para que continuam a ter fundamentos, deve-se evoluir igualmente como a sociedade evoluiu. Deve-se investir em educação. Que todo o povo possa manifestar-se. E que, no final, os intelectuais que Chaui citou possam realmente serem pelo povo, e não pelo próprio bolso, como vimos músicos e outros artistas conceituados agirem.
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