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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Quando a novela é um fracasso, a culpa é de quem?

Em recente matéria publicada neste link, o autor Gilberto Braga culpa os telespectadores e a própria emissora rede Globo pelo total fracasso de sua novela Babilônia. Ele aponta as peculiaridades do público paulista, em que a novela não teve nenhum tipo de melhoria em sua audiência. Daí, ficamos com a seguinte pergunta na cabeça: quando a novela vai bem, o autor é ovacionado. E quando a novela vai mal, a culpa é de quem?
Anos atrás, quando Avenida Brasil fazia sucesso, todos apontavam como o elenco era brilhante e como o argumento era bem amarrado. Ou seja, elogiava-se rasgadamente o estilo JEC (João Emanuel Carneiro) de escrever uma novela. Em nenhum momento falava-se se o público era ou não isso ou aquilo. Por que então seria diferente quando uma produção vai mal? Óbvio que em alguns casos é incompreensível certos fracassos.
Mas, não é o caso de "Babilônia". Nós já tecemos comentários acerca do fracasso da novela semanas atrás. O problema não são os atores, que em sua maioria são bons. E nem do público. A produção tem um grave problema de autor e até mesmo diretor. Culpa-se público pela rejeição, falando-se que o brasileiro está mais conservador. Isso até é possível, porém, nunca se viu (ao menos na cidade de São Paulo), tantas pessoas agindo como desejam.
Casais homossexuais, mulheres vestindo-se como desejam, rejeição a agressões desnecessárias. Talvez tantas violências contra estes grupos estejam cada vez mais perceptíveis justamente porque a reação também é muito grande. Mesmo com todos os problemas atuais, anos atrás não seria possível ver coisas que vemos hoje. Assim, pela nossa percepção, não seria exatamente o público o culpado.
O diretor também mencionou que o Brasil atual não aceitaria a novela Vale Tudo. Talvez não. Daí vem a grande questão: até que ponto autores e diretores de novelas estão conseguindo realmente identificar o público? Será que eles não ficaram parados no tempo e o espaço, de um público que aceitava qualquer produto e hoje já não aceita mais?
Será que eles entenderam que para um grande vilão é necessário haver um(a) grande herói e heroína? Basta lembramos novamente de "Avenida Brasil". Carminha era uma vilã por excelência, mas a Nina era uma mocinha por excelência também. Ambas extraordinariamente fortes. Ou seja, talvez falte aos autores mais antigos olhar para a sociedade como a sociedade realmente é quer.
Sair às ruas como pessoas "normais" em ônibus, metrôs e simplesmente escutar. Ouvir os papos, ouvir os medos, entender os gostos. As pessoas - ao menos na cidade de São Paulo, grande "vilão na cabeça de Gilberto Braga - querem cor, querem um pouco mais de diversão e um pouco mais de vida. São pessoas que ficam aos seus celulares jogando "Candy Crush" (quer coisa mais colorida que isso?), são pessoas que passam horas no trânsito escutando notícias ruins em seus rádios.
Enfim, são pessoas. O Brasil de quase 30 anos atrás, lá do "Vale Tudo" já não é mais o mesmo. Que queria tudo ao mesmo tempo. Afinal, o país saíra de uma ditadura. Talvez fosse o desejo de ver o que os militares não deixavam ou que se pensavam que não deixaram. E hoje? Depois de fases tão ruins em nossa televisão com tantos shows de horrores, o público talvez só queira se divertir.
Daí, algumas pessoas desavisadas podem até comentar: mas e lá no início da novela os Dez Mandamentos, com as crianças sendo jogadas no rio Nilo? Aquilo não foi muito pesado também? Sim, foi. Mas, também é inquestionável que existia um lado forte de esperança e de justiça. O que o público espera para o povo hebreu é exatamente o que se esperava para a "Nina", justiça. A dramaturgia, quando bem escrita, leva bons frutos. Quando mal escrita...
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