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domingo, 4 de março de 2012

Mangá nacional, síndrome do espelhinho...

Navegantes,
Este post já foi comentado por muitas pessoas em fóruns, grupos e afins. Inclusive por mim, acho que aqui e em outros lugares. É uma reflexão para que se tenha cuidado da parte dos realizadores. A questão do mangá nacional ou o tal "estilo mangá".
Por que nenhum mangá deu certo no Brasil? Não... não pensemos em Turma da Mônica Jovem ou Luluzinha, que têm o "respaldo" das versões originais clássicas em suas costas. Digo o mangá original, inédito... feito aqui em terras tupiniquins.
Bem, temos alguns fatores a pensar. Primeiro: brasileiro não dá valor ao próprio produto nacional. Se tiver que escolher, vai escolher um mangá "made in Japan". É cultural, algo muito maior, mais intenso e que só mudará (se um dia mudar...) em décadas ou séculos. Somos um país relativamente novo, ainda com fortes influências das "metrópoles". "Síndrome do espelhinho", sabe... Tipo, "a novidade que vem de fora é melhor e muito legal para nos satisfazer"! Ou seja, este é o fator mais difícil e cavernoso para conseguirmos ultrapassar tal barreira.
Outro ponto: falta de interesse das grandes editoras no lançamento de mangás nacionais. Motivo: prejuízo. Sim, mangás nacionais dão prejuízo e nenhuma delas que arcar com tal possibilidade. Tipo: "minha empresa não vai tirar um pouco da grana de um mega hit para arcar com um mangá nacional". Isso é um fato? É. Não pense que sua editora preferida pensa diferente disso. Elas poderiam arcar sim, mas, não querem.
Além da questão financeira, o fato é que não temos, realmente, um editor de mangás. Sério. Para ser um editor de mangás é necessário enxergar tendências, ver possibilidades e dar certa "liberdade" aos autores. Infelizmente, não temos uma figura assim no mercado. E o principal motivo é justamente enxergar o que realmente brasileiro gosta. Daí, alia-se a falta de conhecimento do próprio mercado a questão financeira acima e pronto: temos o contexto ideal para que as grandes editoras e seus funcionários não produzam mangá nacional. Nos poucos casos que vemos de mangá nacional, editores dão tantos "pitacos", autores aceitam tanto que só saem "pérolas"...
E as editoras deveriam produzir? Sim, seguindo a lógica da Cauda Longa, deveriam sim. É necessário haver um "mainstream" para que depois hajam os produtos segmentados. Entretanto, nunca houve um mainstream de mangá nacional. Algumas pessoas falam muito da Cauda Longa (favor ler o livro de mesmo título), mas esquecem que a tal cauda se forma desta maneira.
Mas, não é só isso. Há um fator que é extremamente incômodo aos criadores. A mediocridade de suas próprias obras. Sério, para que alguém vai ler uma história que é praticamente uma cópia mal escrita de outra? De personagens que fazem caras e bocas de mau, bom... shounens mal acabados que falam de samurais e afins? Tipo... samurai no Brasil? Ou pirata, ou criaturas com youkais e por aí afora? Gente, acorda!!!
Estamos no Brasil. Isso tudo fica muito fake. Não somos japoneses e não tenho a intensidade da cultura deles, logo, não temos domínio da intensidade do que realmente representa tudo isso. Tudo isso faz sentido quando lemos um mangá deles, porque temos uma "fantasia" da cultura dos caras. Querer transferir para a nossa? Daí saem aberrações que não vão agradar.
Fora isso, parece que (sério), alguns autores só leem mangás. Quantos leram Alexandre Dumas, Julio Verne ou um Machado de Assis? Ou até mesmo autores recentes como Paula Pimenta? Esta última, faz muito sucesso junto ao público teen com seus livros... Ou seja, para mim, fica a impressão que autor de mangá nacional só lê mangá, só vê anime. O desprezo para com outros estilos e linguagens é tão grande, que acham que é "blasfemia".
Vejo também que autor de mangá no Brasil tem preconceito quando ao estilo infantil, um dos que poderiam dar alguma grana. E, curiosamente, ao estilo humor. Brasileiro faz tanta piadinha com tantos assuntos, mas, para transcrever isso em um mangá ninguém consegue... Isso é meio estranho.
Assim, vemos que há muitos fatores desfavoráveis. O que poderia ajudar em alguma mudançazinha seria justamente a internet, um meio de divulgação interessante para novos autores. Entretanto, caímos justamente no fator acima, de história pífias, sem graça, sem sentido e sem humor.
Por fim, voltando a editora, ou as que almejam ser... Esta história do "faz depois a gente vê". Cara, desculpe, quem já participou de algum projeto supostamente grande deve já ter lido algo do tipo... Gente, quem tem interesse real em produzir algo VAI TAMBÉM OFERECER ALGO (vulgo grana) REAL. Não vai deixar o assunto "para depois". Se deixar, desconfie. Se é para fazer praticamente de graça, faça sozinho e joga na internet. Ao menos, você, autor, terá controle sobre sua obra.
Isso é muito cruel. Mas, é a pura verdade. Sinceramente, não vejo muito futuro nestas histórias de mangá nacional. Ninguém está disposto a meter a mão no bolso (vide editoras mainstream) ou a enxergar, nossas falhas, nossos acertos (vide autores). Ou seja, nossa própria cultura! Autores de mangás acham que por ser mangá, tudo deve ser feito integralmente como é feito lá. E não é bem assim. Se alguém ai tiver interesse, vai procurar o que é o termo "Anhangabaú". Talvez, perceba que daria uma baita história...
Hoje, eu diria aos interessados em fazer mangá nacional: vivam de qualquer outra coisa na vida para ganhar grana. E... façam um trabalho interessante e joguem na net. Não tentem sonhar muito com este meio, porque por hora, não há futuro. Não com a atual configuração a qual estamos inseridos.
Não desistam de seus sonhos. Realizem-nos, mas de uma forma realmente sensata.

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14 comentários:

WESLEY CHAVES disse...

muito bom o texto SANDRA, são muitos anos de batalha pra pouquissimas coisas conquistadas, editora nehuma vai se arriscar a publicar uma manga nacional por temer levar um belo prejuizo e que não esta errada por isso, editora de quadrinhos - SIM OTAKUS MANGA É QUADRINHO, DA MESMA FORMA QUE ANIME É DESENHO - só lança uma obra se ela ver que a mesma rendera lucro para a empresa, é assim que funciona e sempre funcionara.
Outro ponto que eu queria destacar, o mundo NERD e OTAKU em seus varios sites e blogs estão cheios de criticos e especialistas no assunto que muitas vezes opinam com muita arrogancia onde sua opinião e a lei, mas na hora de se mostrar uma boa HQ falham miseravelmente, um dos maiores exemplos disso O TENEBROSO MANGA DO MEGAMAN FRUTO DA GENIALIDADE DOS RESPONSAVEIS PELA EXTINTA ANIMAX, um dos piores quadrinhos que li na vida.
Outro ponto importante em que concordo com voçÊ e sempre achei qu o quadrinho nacional deveria ter uma IDENTIDADE NACIONAL, seja manga ou super-heroi o publico tem que se identificar com o que esta lendo, a nossa cultura e a do JAPÃO são completamente diferentes, como exenplo cito a numero 1 da AÇÃO MAGAZINE, compare a primeira e a segunda historia, uma fantasia e a outra bem mais pé no chão e de facil identificação nacional, que na minha opinião e disparada a melhor da revista, se tivessemos mais historias assim com boa qualidade talvez o quadro fosse bem diferente.
Desculpe pelo longo comentario, mas esse assunto da muito pano pra manga.

The Fool disse...

Eu costumo falar um coisa parecida pra moleque que "quer ser mangaká":
Um mangaká tem estofo intelectual, leu muitas coisas e o principal: sabe olhar pro povo japônes e fazer coisas que agradem o povo japônes.
Dessa mistura saem os mangás.
Aqui fulano não quer saber de livros, não sabe olhar o seu redor, não faz idéia do que as pessoas gostam ou desgostam e se mete a fazer mangá?
Pára, não me admira que nada dê certo.
Bom post Sandra!

Megasônicos disse...

Adorei o post e concordo com você.
Só acrescento o fato do público não botar a mão no bolso para as coisas que não são do Japão, salvo o sitado Turma da Mônica e Luluzinha (em menor escala).
Os próprios leitores de Mangás nacional, não são consumidores (pagantes) do Mangá nascional.

Só se vende esse tipo de publicação em feiras e eventos.

Conhecí muita gente desse mercado, tanto produtores, autores e fãs. Infelizmente, o panorama não me agradou, pois os produtores e autores sempre correm atras de fazer um bom trabalho, e as vezes até conseguem, mas os fãs, sempre querem consumir on-line e de graça.

Talvêz seja a crise do patinho feio. Se é nacional não vale ser pago, sei lá !
É a cobra comento o rabo !

Mais uma vêz, parabéns pelo texto !

E realmente, a cultura brasileira é muiiito bakana e rica. Vale conhecer !

Diego Juraski disse...

Concordo com o seu texto. E na minha opinião a pobreza nos roteiros reflete além da falta de cultura geral, falta de criatividade, precisamos explorar elementos da nossa cultura nas histórias, mas de forma atrativa, inteligente, moderna. Quando se fala em quadrinho nacional, logo alguém diz que tem que usar o folclore, mas a pessoa simplesmente pega um personagem "saci" e coloca na história. Isso não atrai ninguém. Saci apesar de ser do folclore, é um personagem restrito ao interior, e mesmo lá pouco lembrado. Já pararam pra observar quantas versões diferentes de "shinigami", "yokai" e até de samurai e ninjas já apareceram em mangás e animes? E fazem sucesso. Porque são interessantes, tem roupagens modernas e visualmente atraentes pro público atual. Brasileiro precisa entender que cultura não é algo imutável, fixo. Ela é dinâmica e muda a todo momento de acordo com seu tempo.

Fernando Ventura disse...

Tenebroso ou não, os editores da Animax deram espaço pro pessoal publicar. Só existe mercado se existe alguém publicando material e dando oportunidade pro pessoal se desenvolver. Quem, depois dessa época da Animax, deu oportunidade pro pessoal novo que ainda estava buscando seu próprio espaço?

The Fool disse...

Aí, o Fernando pegou um ponto.
Megaman e Hypercomix mostraram muitos desenhistas novos, não rolou com autores, mas foi uma ajuda.
Muitos desenhistas dessa época sumiram, mas outros estão por aí, trabalhando.
E lol, Sandra tu sabe que a Rumiko Takahashi é maior prova viva que tu pode pegar lendas, costumes e criaturas mitólogicas e fazer algo moderno, agradável pras pessoas.
Mas quantos pseudo-mangakás vêem isso na obra da Rumiko, né? =(

Nelson Machado disse...

Perfeito, como sempre, Sandra! E se estende pra toda produção cultural alternativa do Brasil. Meninos, ouçam essa moça! Ela sabe do que está falando! Brilhante.

J Daniel disse...

O mangá nacional vai começar a funcionar quando ele sair das amarras do fandom e começar a mirar o público fora dele.
Muito autores saem desse fandom e criam material para esse mesmo fandom consumir. O problema é que o fandom é exigente e sempre vai preferir o original estrangeiro. É um ciclo vicioso.
Os franceses já resolveram esse problema e fizeram muito bem a adaptação do estilo mangá para o seu estilo e cultura.
Bom... aqui temos grandes autores nacionais de literatura para o público infantojuvenil e juvenil de ambos os sexos.
Há muitos livros interessantes e que vendem bem para esse público.
Porém, essa qualidade não foi totalmente passada para o mundo dos quadrinhos. Há uma carência de bons personagens e boas histórias, se compararmos com o que é publicado em livro. O público que consome esses livros é potencial para consumir quadrinhos, desde que a qualidade acompanhe.
Isso se aplica aos quadrinhos em estilo mangá.
Se pegarem os livros da coleção Vagalume e os livros do Pedro Bandeira, como os dos Karas, e tranformassem em mangás, dariam ótimos mangás. A fórmula está toda ali.
O Ziraldo é o nosso Tezuka. Os elementos da cultura brasileira já foram atualizados por ele para o contemporâneo. O Saci-Pererê do Ziraldo joga futebol, ouve música, gosta de filmes, namora...
As referências e as inspirações estão todas disponíveis, inclusive os clássicos da literatura.
Portanto, para os jovens, não precisa necessariamente ser Maurício de Sousa ou o Akira Toriyama as suas maiores referências para se começar a fazer quadrinhos/mangá no Brasil. Há um mundo vasto de leitura para explorar e pesquisar.
Outra questão é a falta de quadrinhos/mangás para o público feminino (meninas, adolescentes, mulheres).
O público feminino já é um enorme consumidor de literatura. Poderia também consumir quadrinhos se existisse o material.
Tirando a Mônica, qual são as grandes personagens femininas dos quadrinhos brasileiros que são adoradas pelas mulheres?
Sobre a Ação Magazine...
Ela é uma revista que apoio. Se tem defeitos ou não, os responsáveis por ela irão descobrir por si só através do retorno do seu público. Se tiverem mentes abertas, o feedback irá ajudar suas criações a melhorarem. Eu já dei a minha opinião diretamente aos autores.
Enfrentar a banca é a melhor solução e não o discurso e as teorias. Então, tem de se elogiar a coragem deles nesse aspecto. Eu torço para que a publicação dê certo.

J Daniel disse...

só corrigindo...

CÍRCULO vicioso.

specctro disse...

Concordo em gênero, número e grau! Sem mais.

specctro disse...

Eu acho o seguinte também: As pessoas fora do Japão não deviam pensar em "fazer mangá". Isso não existe. É algo específico da cultura deles, muito particular. O que deve ser pensado é "FAZER QUADRINHOS", com influência de mangar ou não, e fazer algo sincero, sem querer copiar uma linguagem do outro lado do mundo. Temos um exemplo de sucesso na nossa cara: Mauricio de Souza. Adoram falar mal dele hoje, mas temos que concordam que ele chegou onde chegou porque criou uma obra forte e consistente.

L.Karina disse...

Ótimo texto.Acho que é possível ser adaptada para uma linguagem mais próxima da cultura Pop,como os próprios japoneses fazem nos mangás.E mesmo algo da Literatura clássica pode ser bem transportada pros quadrinhos de um jeito moderno e divertido.
Também concordo que os autores de mangá nacional são muito presos formula do mangá e não a forma.Deveriam observar em volta e tentar criar algo que possa cativar as pessoas,como fez o Mauricio de Souza.

Anônimo disse...

Renan: vim parar aqui por causa do jbox. Concordo com tudo que você falou e com os comentários acima. A idéia sobre os Karas é excelente, li esse livro na escola ainda. Eu vou comprar mangá nacional que é cópia mal-feita do estrangeiro?(vale pra quadrinhos tbm)O bom humor do brasileiro tbm podia ser explorado. Não vejo mangás de humor sendo lançados por aqui, só li o Dr Slump e acho demais!

Kurosu disse...

Excelente o texto Sandra. Falta mesmo gente que saiba olhar para o público e trabalhar seus gostos. Só pra constar: pesquisei o significado de Anhangabaú, e daria mesmo uma ótima história, mas o povão tem o costume de rejeitar qualquer coisa que tenha referência indígena, ou ficar naquilo da Iracema e da novela da grobo, é...