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quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Negócios Suspeitos: Casal de Eugene se sustenta inventando enredos e personagens para histórias em quadrinhos

Por Susan Palmer
Tradução: Fernando Ventura
The Register-Guard


Numa calma rua nas colinas ao Sul de Eugene, em um agradável sobrado de dois andares, seus moradores sonham com o fantástico. Uma pintura de museu que absorve seus visitantes em uma realidade virtual. Objetos transformam-se em móveis falantes. Monstros incríveis são vencidos por super-heróis metidos – tantas histórias fantásticas!
Bem vindos ao mundo dos quadrinhos de Janet e Michael Gilbert, duas pessoas normais que são pagas para sonhar com o extraordinário e trazê-lo à vida em coloridas páginas de revistas em quadrinhos.
Michael Gilbert, 53 anos, tem desenhado quadrinhos desde criança. Ele mesmo publicou sua primeira coletânea, e desde então foi contratado para desenhar alguns clássicos: Batman, Superman, a turma Disney.
Ele também reviveu e deu nova vida ao obscuro personagem dos anos 40, Mr. Monster. Sua esposa, Janet, 51 anos, é mais recente na indústria. Nos últimos 14 anos ela se especializou em escrever enredos Disney para o Pato Donald. Como eles chegaram até aqui? Perseverança e a habilidade de criar boas histórias. "Nós dois temos um senso de humor bobão", diz Janet.
Ambos trabalham para a Egmont Comic Creations, uma editora dinamarquesa que comissiona desenhos e roteiros de quadrinhos e os oferece para serem publicados ao redor do mundo. Os trabalhos dos Gilberts são famosos mundialmente, onde os quadrinhos Disney são extremamente populares. Suas histórias são publicadas em inúmeras línguas e podem ser vistas em 91 países. Recentemente, uma firma americana, Gemstone, iniciou a publicação de seus trabalhos por aqui.
Entrevistamos a pouco o casal em seus estúdios caseiros, para dar uma espiada em seus últimos projetos e aprendermos como se tornar um profissional dessa área.
No estúdio de Michael, Pato Donald está ganhando vida em uma série de painéis onde o pato encrenqueiro se decide capaz de escrever seu próprio roteiro cinematográfico. Primeiro passo no processo: preguiça. Quando o pato descobre o quão trabalhoso é escrever, ele pede para um amigo cientista que construa um computador que transcreva seus pensamentos.
O quarto de Michael é espaçoso com uma prancheta abaixo de uma luminosa janela que dá para o norte. Nas paredes estão originais de um dos seus heróis dos quadrinhos, Steve Ditko, co-criador do Homem Aranha e Dr. Estranho. Já o canto de Janet é pequeno, sem espaço nas paredes para nada que a possa distrair. Ela escreve histórias que serão desenhadas por outros artistas, e prefere não ter distrações.
Nesse quarto ela criou alguns enredos exóticos para a turma de Patópolis.
Ano passado, por exemplo, ela enviou os sobrinhos do Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho para o museu, onde estes perceberam que as grandes obas de arte mundiais estavam desaparecendo das paredes.
O trio foi então sugado por uma moldura de uma tela negra, que os transportaram para um mundo alternativo habitado pelo "Pensador" de Rodin, a "Mona Lisa" de Rembrandt* e cenários famosos, como o "Céu Estrelado" de Van Gogh. As obras resolveram se esconder dos visitantes dos museus por não estarem se sentindo apreciadas.
A história chamou atenção da revista de noticias alemã Stern, o equivalente a uma mistura da Newsweek e Entertainment Weekly, que tornou famoso o gibi e a autora em uma breve resenha. "É isso que torna esse trabalho divertido pra mim, tentar expandir o universo Disney um pouco", diz Janet.
Outra vez ela enviou todo os móveis de Patópolis para fora de suas casas, em greve. Colocou então o Pato Donald em uma cápsula que o transformou em uma cadeira, para que o pato convencesse os móveis a voltarem ao trabalho.
De todos os personagens Disney, Donald é seu favorito! “Donald é preguiçoso, mal-humorado, egoísta, bobo, estúpido, grosseiro... e ainda assim completamente adorável. Às vezes até corajoso. E apesar de todos seus problemas, dificuldades e maiores feridas, ele continua lutando - o que é uma boa lição para todos nós!”
Diferente do Mickey, quase um santo que sempre faz o que é certo, Donald está sempre se metendo em encrencas. As crianças são atraídas instintivamente por sua personalidade nada perfeita, ela diz. ”Todos temos um pouco do Pato Donald dentro de nós”. E talvez seja por isso que o personagem tenha essa multidão de fãs! "Ele é fantasticamente popular ao redor do mundo". Dúzias de Web Sites de fãs atestam isso. Existe até mesmo uma palavra para seus devotos: Donaldists.
No momento, porém, Janet está se ramificando além de Disney. Ela foi recentemente contratada pela Viz, uma editora de São Francisco, para re-escrever uma revista em quadrinhos japonesa para leitores da língua inglesa. Quadrinhos japoneses estão migrando firmemente para os EUA na última década. O quadrinho em que está trabalhando se chama "Happy Hustle High School."
Janet recebe uma tradução literal do japonês para o inglês. É sua obrigação retrabalhá-la numa linguagem contemporânea. [gírias] Culpem Michael por trazê-la ao mundo dos quadrinhos.
Ela o conheceu quando estava ensinando arte em uma escola de ensino médio em Ohio. Em crescimento nos quadrinhos, Michael foi notícia em jornais locais e Janet ligou para perguntar se ele gostaria de conversar com seus estudantes sobre seu trabalho.
Michael tem se encantado por quadrinhos desde que sua avó os usou para ensiná-lo a ler. O fascinava tanto que logo começou a criar seus próprios.
No mundo dos quadrinhos tudo é maior que a vida. "Os heróis são mais heróicos. As mulheres são ainda mais atraentes, os estúpidos, ainda mais estúpidos," Michael diz.
Ele próprio publicou sua primeira coletânea enquanto estudante da Universidade do Estado de Nova Iorque em New Paltz, imprimindo 4000 cópias por US$ 400 que ele vendeu de porta-em-porta por 50 centavos.
Foi uma boa lição para compreender a distribuição antes de conseguir publicar, ele diz. Finalmente, ele se mudou para a Califórnia e se envolveram com o nascente movimento underground dos quadrinhos em Berkeley. Levou 10 anos de trabalho duro para que pudesse se sustentar com os quadrinhos.
Durante o caminho, ele desenhou Superman, Batman e vários personagens Disney, e quando questionado a propor um novo personagem, ele ressuscitou um personagem obscuro que estava empoeirando desde os anos 50: Mr. Monster.
Seu super-herói é na verdade apenas um homem simples, com um físico espantoso, e que persegue as criaturas mais assustadoras que Michael consegue inventar.
A criação o permite brincar com todos os seus temas favoritos. "Quando crio as histórias, tento ajustá-las para que tenham o que mais gosto - horror, humor e super linguagem retórica."
Além de Mr. Monster, Michael também vem trabalhando em uma revista em quadrinhos do universo de "Os Simpsons". Para a Bongo Comics ele está desenhando o Homem Radioativo, o herói de quadrinhos de Bart Simpson. E ele recentemente aceitou um trabalho para desenvolver motivos para um designer de tatuagens de Nova Jersey.
A arte de quadrinhos parece ter seus altos e baixos desde sua criação nos anos 1890. Muitos consideram os anos 50 como a era de ouro dessa arte.
Mas nos anos 80, Art Spiegelman deu um novo fôlego a forma em seus volumes visionários do Holocausto intitulado "Maus. "
Em 2001, com a novela ganhadora do prêmio Pulitzer "As Aventuras de Kavalier e Clay" uma história em quadrinhos situada na Segunda Guerra Mundial, quadrinhos não eram mais uma arte qualquer.
"As pessoas não pensam mais tanto nos quadrinhos como cultura descartável", diz Janet. Conforme a popularidade de arte cresce, crescem também o número de artistas que tentam fazer parte do negócio. Para os interessados que desejam tentar uma carreira nos quadrinhos, os Gilberts tem alguns conselhos.
"Leia muito", eles dizem - "dos maus aos bons exemplos do meio. Leia o material bom para compreender porque é bom, e o material ruim para identificar o que se deve evitar".
Desenhe muito, Michael diz. Tente ser o melhor que puder. Desenhe do natural assim como da sua imaginação para expandir suas habilidades.
Então leve seus trabalho para convenções de quadrinhos onde você pode mostrá-lo e receber indicações de editores e de outros artistas.
E não desista.
Michael diz que conhece inúmeros artistas talentosos que começaram quando ele começou, alguns até melhores do que ele era. A diferença entre eles é que Michael continuou insistindo.
"Você tem que ser persistente", ele diz.

*Mona Lisa é de Leonardo da Vinci. Foi um erro da matéria original.

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